Ideias moldam o mundo

Religião: Consumo

Texto de Frei Betto publicado no Jornal O Dia 01/04/01

AYoung & Rubicam, uma das maiores agências de publicidade do mundo, divulgou a lista das 10 grifes mais famosas:

  • Coca-Cola,
  • Disney,
  • Nike,
  • BMW,
  • Porsche,
  • Mercedes-Benz,
  • Adidas,
  • Rolls-Royce,
  • Calvin Klein e
  • Rolex.

A Fitch, consultoria londrina de design, no ano passado realçou o caráter divino dessas marcas, assinalando que, aos domingos, as pessoas preferem o shopping à missa ou ao culto.

Em favor de sua tese, a empresa evocou dois exemplos: desde 1991, aproximadamente 12 mil pessoas celebraram núpcias nos parques da DisneyWorld, e estão virando moda os féretros marca Harley, nos quais são enterrados os motoqueiros fissurados em produtos Harley Davidson.

A tese não carece de lógica. Ainda engatinhando, a Revolução Industrial descobriu que as pessoas não querem apenas o necessário. Se dispõem de poder aquisitivo, adoram ostentar o supérfluo. A publicidade veio ajudar o supérfluo a impor- se como necessário.

Se chego à casa de um amigo de ônibus, meu valor é inferior ao de quem chega de BMW. Isso vale para a camisa que visto ou o relógio que trago no pulso. Não sou eu, pessoa humana, que faço uso do objeto. É o produto, revestido de fetiche, que me imprime valor, aumentando a minha cotação no mercado das relações sociais.

O pecado original dessa nova religião é que, ao contrário das tradicionais, ela não é altruísta, é egoísta; não favorece a solidariedade, e sim a competitividade; não faz da vida dom, mas posse.

E o que é pior:
acena com o paraíso na Terra e manda o consumidor para a eternidade completamente desprovido de todos os bens que acumulou deste lado da vida.

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