Ying e Yang
abril 7, 2009 por admin
Arquivado em Destaques, Razao x Fé
Texto por Eduardo Marques – Porto Alegre -
Talvez o drama por excelência do homem Ocidental contemporâneo esteja retratado no Fausto de Goethe, no qual vemos o Dr. Fausto, movido pela ambição de possuir todos os bens do mundo, entregar a própria alma ao Diabo. O trágico da ambição que se transforma em valor absoluto está exatamente nisso: a ambição se satisfaz com a pura ambição, em lugar de levar a criatura a possuir, leva-a a ser possuída; ela não domina as coisas, mas é dominada por elas.
Podemos dizer que o homem Ocidental vive preso ao imediato. À medida que o homem mais desconhece a razão de ser de sua vida, tanto mais ele se agarra às pequeninas coisas do cotidiano. Tanto menos ele conhece o sentido de sua vida, mais é tomado de uma angústia e paixão, que deixam a impressão de uma pressa de chegar sem que ele saiba aonde.
O mundo ocidental inventou um modelo prometeico de dominação, de conquista da natureza, que afasta qualquer idéia de sabedoria. O problema de vida e da morte foi ocultado por esta agitação em que fomos envolvidos.
Nunca se estudou tanto, e mesmo assim o homem ocidental perdeu o senso de como encaminhar sua vida sabiamente. Por uma mentalidade pragmatista, utilitarista, ativista; se empolgou tanto com o fazer, que se esqueceu do por que fazer. Se preocupou tanto com o ter, que se esqueceu do ser. Deixo-se envolver tanto pela necessidade de produção, que perdeu o senso de perfeição.
Nossas vidas são agora dominadas por uma deusa, a “Razão”, que é a nossa ilusão maior e mais trágica. É com a ajuda dela que acreditamos ter “conquistado a natureza”. Que chegamos a um nível muito elevado de desenvolvimento, já que associamos progresso a desenvolvimento científico. O desenvolvimento técnico-científico, por outro lado, nos deu uma sensação imensa de liberdade, que foi somada a nosso crescente individualismo. A aspiração por poder – de consumo, de mando – se identificou com o exercício da liberdade. Já que descarregamos nossas frustrações fetichizando objetos, tentando preencher nossas lacunas com bens de consumo; além de acharmos que o poder traz liberdade – já que quem manda transpassa a sensação de ser mais livre, menos envolto nas dificuldades pela sobrevivência.
Construímos, assim, asas como Ícaro, que voa deslumbrado inconseqüentemente até se precipitar no vazio. O vazio da solidão, da insatisfação, da atomização, das drogas, do álcool, de uma busca incessante que não leva a lugar algum… Tudo isso somado a uma vasta coleção de neuroses e patologias mentais.
Encontramo-nos numa época de transição e de tomada de consciência de uma falta. Daí decorre uma necessidade de Oriente, que resulta do vazio de nossas vidas de Ocidente. Esta necessidade foi estimulada pela descoberta que nosso individualismo está longe de nos trazer paz interior. O individualismo possui uma face iluminada e clara: a das liberdades, autonomias e responsabilidades. Mas possui também uma face sombria, cuja sombra amplia-se entre nós: a atomização, a solidão, a angústia. Daí o recurso ao Oriente do budismo, do zen, dos gurus, mantras, incensos, filosofias orientais, Yoga, etc. Talvez essa seja nossa reação contra a dissociação do nosso ser, a busca da parte ausente, do contemplativo; que se dirige ao engrandecimento do nosso próprio ser. Que foi sendo esquecida gradativamente com o triunfalismo da ufania racionalista e cientificista do iluminismo.
Recorrendo as praticas orientais, por vezes elas mesmas ocidentalizadas, o que acabamos finalmente por aprender através delas? Um certo distanciamento em relação a si mesmo, que é o famoso “largar de mão”, um esforço para se desvencilhar do que compulsivamente se quer reter em mãos. É o que acontece com uma meditação que consiste em assumir o vazio ou o silêncio em si.
Essas culturas, na imensa maioria, tem a certeza da reencarnação, da vivência em muitos corpos na busca da superação de si mesmo, o que leva a uma inevitável valorização de construções “pétreas” do espírito, aquisições para sempre, a valorização do auto-conhecimento, da sabedoria nas mais diversas formas. Umaidéia que se assemelha ao “Paradigma Holográfico” da nossa filosofia, que sabe que o todo está contido no uno e o uno no todo. Ou, quanto mais conhecer-te a ti mesmo, mais conhecerás o todo, e vice-versa.
Na índia temos a origem de muitas religiões como o Budismo, o Jainismo e o Hinduísmo. Podem ser centradas sobre uma variedade de práticas que são vistas como meios de ajudar o indivíduo a experimentar a divindade que está em todas as partes, e realizar a verdadeira natureza de seu Ser, como os hinduístas. Do pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade, compreensão da origem do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento, como para os budistas, etc.
Ou então, da necessidade de escapar a esse ciclo infernal de sofrimentos, a fim de se atingir um nada que, ao mesmo tempo, significa plenitude: o nirvana. Ou sair do ciclo de karmas sucessivos – o Samsara (perambulação) – por nosso próprio esforço de elevação espiritual e esforço por nossos semelhantes, pois estamos presos a eles por nossos próprios erros e temos que voltar para corrigi-los. E, enquanto não estivermos livres de todos nossos erros, continuaremos presos ao Samsara através do Karma. Como disse Rinpoche:
“Quando alguns grandes mestres do passado refletiram sobre a preciosidade da existência humana, eles nem mesmo tinham vontade de dormir; não suportavam desperdiçar um único instante. Eles colocavam toda sua energia na prática espiritual”.
A religião dos Hindus é a busca inata pelo divino dentro do Ser, a busca por encontrar a Verdade que nunca foi perdida de fato. Certamente nós, ocidentais, temos muito a aprender com a filosofia, cultura e religião oriental. Talvez esse seja o complemento do nosso ser, o lastro que nos falta nos embates da vida cotidiana, como o equilíbrio entre o Ying e o Yang.
Vivemos envoltos em arquétipos de felicidade e satisfação que exaltam o materialismo e o egoísmo em meio aos seres. Uma constatação que se pode fazer é que os seres se tornam egoístas mesmo sem o querer ser. E, enquanto não compreendermos nossa verdadeira natureza, nosso deus interior, a amplitude da consciência espiritual… Continuaremos nos arrastando nos mais diversos sofrimentos e problemas morais e sociais, como vemos atualmente.
Reflitamos então sobre a pergunta que um monge fez ao seu Mestre: “Como posso sair da Samsara (a Roda de renascimentos e mortes)?” O Mestre respondeu: “Quem te colocou nela?”.
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Demorô comentou qua, 8th abr 2009 13:32
Jesus, muito grande esse texto! Vou ler com o tempo! Aaeuhauehau
Valquiria Starling comentou qua, 8th abr 2009 15:25
Texto complexo e intenso…bom. Mas poderia ter apronfundado um pouquinho mais na teoria do Ying e Yang, ja que este eh o titulo do texto. Mas acho tambem que o Oriente e o Ocidente representam essas forcas de uma maneira indireta.
O homem esqueceu de onde veio e so se importa para onde vai agora; sem temer consequencia alguma!
Eduardo Marques comentou qua, 8th abr 2009 17:16
Ah… só pra explicar (sou adepto do Tom Zé: “É melhor confundir do que explicar” mas…)
O texto não se propõe a levantar uma hipótese e, em linhas analíticas, comprovar tal hipótese, que seja do Ying e Yang. Gosto do jeito que os poetas escrevem, com uma linguagem conotaviva, que dá espaço a reflexão e a interpretações, às vezes cheias de lacunas a serem preenchidas por quem lê, mesmo que o texto não seja propriamente conotativo, há essa intenção velada.
Estamos tão acostumados a pensar de forma “racional” e academicista, que esperamos que qualquer coisa que se preze, que tenha “valor” (posivita, científica), tenha que ter esse formato academicista.
Se eu seguisse essa linha academicista, estaria utilizando a forma de pensar que critico no texto.
Não pretendo nunca escrever algum texto que seja um fim em si mesmo. Prefiro um texto cheio de lacunas, que despertem a reflexão, instigue questionamentos; que um que revele verdades atuo-suficientes dentro do próprio texto.
O título pra mim, sempre será mais associado a um título literário, que um título para um artigo científico. É muito mais para criar uma imagem, que para remeter a uma proposição científica.
“Por isso os filósofos correm: eles têm medo de que eu, com minha música, os faça dançar. A dança é o que mais os amedronte. Porque dança é coisa que se faz com o corpo inteiro. Mas os filósofos não têm corpo. Eles só têm cabeça e olhos. É dos seus olhos que nascem os seus pensamentos. Não sabendo dançar, nem mesmo pensar eles sabem. Porque pensar é dançar com os pensamentos. Os pensamentos dos filósofos não dançam. Eles marcham, como soldados em ordem unida.”
Mas, críticas são sempre muito bem vindas
Abraços!