Feridas emocionais
abril 20, 2010 por admin
Arquivado em Destaques, Razao x Fé
O que acontece quando se está machucado e alguém ou algo toca bem em cima do machucado? Geralmente sentimos dor e, em seguida, raiva e afastamos de nós, o mais rápido possível, às vezes, até de forma exagerada e estabanada, o que ou quem tocou a nossa ferida. Nesta reação de defesa, por vezes quebramos algo ou até machucamos alguém.
Esta mesma reação de defesa acontece, quando alguém ou situação, ativa uma dor emocional ao tocar uma ferida de rejeição ou inferioridade, por exemplo. Se alguém faz alguma coisa, mesmo sem querer, que nos faça sentir ameaçados, imediatamente acionamos todo o nosso arsenal de defesa e ataque.
Você já reparou que quando estamos com um dedo do pé machucado parece que todo mundo tropeça, exatamente, naquele dedo? E quando pegamos muito sol e estamos ardidos, queimados, aí mesmo é que parece que todo mundo resolve nos abraçar e dar tapinhas nas nossas costas? A impressão é que estamos atraindo estes eventos mais do que nunca. Será isto verdade ou ilusão? Será que estão nos abraçando mais ou tropeçamos mais vezes ou será que por estarmos feridos e mais sensíveis, qualquer toquezinho machuca, dói? Será que perceberíamos a quantidade de abraços se não estivéssemos queimados pelo sol? Provavelmente os abraços são os mesmos, os tropeços são os mesmos. O que mudou foi a nossa condição. Estamos feridos e, portanto, mais sensíveis, mais vulneráveis aos toques e solavancos. Os mesmos abraços em condições normais seriam até prazerosos e desejáveis. Percebemos, então, que a nossa condição de saúde faz total diferença na maneira como percebemos as relações do mundo exterior com a gente.
É necessário estar atento para distinguir se realmente o outro está nos ferindo ou nós já estávamos feridos quando ele nos tocou. Quando nós não estamos conscientes da nossa situação , quando estamos cegos, inconscientes, para as nossas feridas, os nossos machucados, acabamos por culpar e acusar o outro dizendo que ele nos feriu, e , às vezes, o ferimento é muito velho, está lá aberto há um tempão e a gente não dá atenção a ele porque a dor só aumenta quando alguém se aproxima de nós e toca nele.
De modo geral, quando temos um ferimento que não queremos que doa, nós nos afastamos de tudo e de todos que possam tocá-lo. O triste é quando isto acontece na nossa vida emocional. Quando nos isolamos e não deixamos ninguém chegar perto, ninguém nos tocar, acreditando que assim não sentiremos a dor e ficaremos bem, sozinhos.
Quando somos adultos, com certeza, carregamos ferimentos abertos ao longo da vida. Estes ferimentos, alguns já se curaram e sumiram, outros deixaram cicatrizes, mas não doem mais e outros, ainda, estão abertos, esperando por cura. São justamente estes últimos, os que doem quando tocados. Enquanto a queimadura de sol na nossa pele não se curar, qualquer abraço gostoso vira sofrimento. E vamos evitar os abraços gostosos até nossa pele se recuperar. Assim, é, também com as feridas emocionais. Enquanto estiverem abertas, evitaremos a proximidade, o aconchego, a troca com os outros. É preciso curar nossas feridas para aproveitar o toque, a troca, os relacionamentos. Quando estamos inconscientes das nossas “feridas de infância” é comum atribuirmos aos outros a responsabilidade pela nossa dor. Dizemos: “- Fulano me magoou.”, “- Cicrano me fez sofrer.” E não questionamos se foi isto mesmo ou se simplesmente Fulano e Cicrano tocaram uma ferida aberta e como costuma acontecer com ferimentos expostos, doeu. Será que este mesmo toque de Fulano ou Cicrano nos teria ferido se estivéssemos saudáveis?
Tomando consciência de que o nosso sentimento de inferioridade, o nosso medo de rejeição, a nossa mania de perseguição, o nosso sentimento de vitimização já estavam lá antes que Fulano e Cicrano aparecessem, damos um grande passo para melhorar nossos relacionamentos: Assumimos a nossa responsabilidade pelo nosso bem estar. Nos damos conta de que temos pontos que precisam ser curados. Para isto precisamos olhar para eles, conhecê-los. Tudo começa com o autoconhecimento. Autoconhecimento e auto-responsabilidade nos tiram da situação de vítimas indefesas do mundo. E, é, exatamente por isto, que, por incrível que pareça, muitas pessoas não querem olhar para dentro, não querem descobrir que são responsáveis por si mesmas, preferem continuar culpando os outros e cobrando deles a solução para os seus problemas, preferem a dependência à independência responsável.
É extremamente comum atribuirmos culpa aos outros pelas nossas dores. Como é cômodo. Toda culpa requer castigo ou perdão para aplacá-la. Se perdoamos, nos consideramos magnânimos; se castigamos, nos sentimos “poderosos” e extravasamos, muitas vezes, nosso ódio através da crueldade, nos tornando mais insensíveis à dor dos outros e à nossa própria dor. A crueldade é um tipo de analgésico. E, sem sentir, culpando, condenando e executando a pena sobre os outros, repetidas vezes, ao longo da vida, ficamos cada dia mais anestesiados para as nossas dores e menos sensíveis, deixamos de sentir que elas existem, até que, de novo, alguém venha e as toque.
Observando por este ponto de vista, percebemos que o toque do outro ao despertar a nossa dor é um auxílio, uma ajuda que recebemos do mundo quando não estamos cientes de nossas feridas e, portanto, incapazes de ajudar a nós mesmos nesta questão. A dor que sentimos é um alerta, uma chamada, uma chance para o despertar. Infelizmente, quase sempre, além de desperdiçarmos a nova chance, ainda maltratamos aquele que seria o emissário do alerta, aquele que, mesmo sem saber nos ajudaria a olhar para as partes em nós que precisam de cuidado, de atenção, de cura. E, ao invés de agradecê-lo, lembrando o que disse Jesus: “Amai os vossos inimigos.” , nós o enxotamos, o maltratamos, o culpamos, condenamos e punimos. E, então, voltamos à nossa caverninha, ao nosso isolamento, acreditando que separados e sozinhos estaremos seguros, não sentiremos dor.
A maneira mais saudável de se “evitar” a dor é a cura dos ferimentos. O isolamento ajuda a perpetuar a situação doente através do tempo e favorece outros desequilíbrios, já que somos seres sociais e precisamos de relacionamentos saudáveis e calorosos. Da mesma forma que fazemos com um dedo machucado ou com a pele queimada pela nossa exposição exagerada e descuidada ao sol, é prudente e saudável tratar dos nossos ferimentos emocionais para que eles não se agravem na convivência não saudável com os demais. Para isto é preciso conhecer as nossas dores, saber como foram originadas, que atitudes destrutivas tomamos que não as deixam cicatrizar e mais ainda, assumir a responsabilidade por elas e pelas mudanças que, finalmente, trarão a cura. A nossa saúde é, acima de tudo, nossa responsabilidade e patrimônio e depende de coragem e disposição para limpar e tratar os traumas, os malentendidos, as mágoas.
Curando nossas feridas emocionais, a proximidade não soará como ameaça. O isolamento não será mais uma “segurança”. As “falsas e inúteis soluções” diminuirão. O medo do contato com o outro diminuirá e poderemos desfrutar dos toques e abraços dos outros sem medo e com prazer.
Lisélia de Abreu Marques
A Cauda Longa
Um elegante conceito de se fazer negócios baseado na abundância e na colaboração que põe em cheque a lei da escassez; que por sua vez é o pressuposto dominante que alicerça a teoria econômica lecionada nas universidades de todo o mundo. Bem, por fazer tremer as bases da até então “imutável” lei da oferta e procura, esse livro de Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, já pode ser considerado um novo clássico.
O livro parte do principio que a Internet nos libertou e nos forneceu ferramentas (até então limitadas às grandes empresas) para sermos criadores e competidores nesse novo mercado global. Porém, mais do que novos comerciantes com alcance além das nossas cidades, nos abriu espaço para explorarmos as nossas individualidades.
Por décadas, várias gerações beberam nas informações e conteúdos que provinham de jornais, TVs e rádios. Não nos era dado escolher o conteúdo. Adaptávamo-nos ao que vinha desses veículos tornando-os parte de nossas vidas. Porém, devido à democratização das ferramentas de produção, hoje é possível a qualquer um criar conteúdo e competir com empresas estabelecidas à atenção do consumidor. Um exemplo disso são os vídeos caseiros que conseguem dividir a atenção de um usuário no Youtube com filmes consagrados. Atualmente, qualquer um pode ter sua voz na grande rede. Ao se desprender da “Cultura de sucessos” que é imposta pelas indústrias do cinema e música, a pessoa comum pode cultivar e desenvolver os seus gostos pessoais em redes cada vez maiores de pessoas que pensam como ela.
A cauda longa em si aparece no aspecto econômico dessa influência cultural propiciada pela internet através do e-commerce. A famosa Lei de Pareto (também conhecida como princípio 80-20), afirma que 20% dos seus produtos correspondem a 80% de suas vendas. Com base nisso muitas lojas limitam a disponibilização de seus produtos nas prateleiras aos que são mais vendáveis. Aos produtos de sucesso.
Já na internet o problema de limite físico de estocagem praticamente não existe. Lojas como a Amazon e o Submarino disponibilizam de tudo e os novos consumidores que antes estavam acostumados a consumir somente os sucessos, agora buscam por coisas mais singulares de acordo com os seus próprios gostos. O que poderia ser difícil encontrar em uma loja de departamento comum se faz acessível em tais sites. Estamos saindo de um mercado de massa para um mercado de nichos. O que nos leva a observar as microtendências atuais. Porém isso é assunto de outro livro…
O importante é que o mundo está ficando mais plural com pessoas que criam, consomem e compartilham ao mesmo tempo. Não há mais papeis definidos. As empresas que não se adaptarem a essa nova realidade se verão engolidas pela maior força democratizante de todos os tempos.
A Cauda Longa
The Long Tail (2006) Chris Anderson
Eduardo Marques
A competição predatória
O clima de competição predatória e de individualismo entre a sociedade nos dias de hoje é crescente. O capitalismo se alimenta da competição. Sem esse processo o sistema econômico atual estaria morto. A competição estimula o desempenho e melhora a qualidade dos trabalhos, serviços e produtos. Todavia ,quando é predatória como no mundo atual, ou seja, quando considera as metas a serem atingidas mais importantes do que o processo utilizado para atingi-las, torna-se desumana e destrutiva.
A competição predatória anula os valores altruístas da inteligência, anula a humanidade dos competidores. A necessidade do sucesso e o medo do fracasso são constantemente lobotomizados num sistema educacional falho que discrimina, julga e credencia a inteligência por um sistema de provas e notas que não estimula o pensar e vai desde cedo repreendendo o estimulo ao raciocínio critico.
Crescemos numa sociedade que tende a ser padronizada, de várias formas, pelo consumo, pela forma de pensar, pela forma de criticar e pela forma de raciocinar é como se fossemos treinados dentro de um modelo padrão. Nesse modelo fechado somos estimulados a competir por tudo e essa competição tende cada dia mais a ser uma competição fria e racional, onde o emocional é desprezado. As conseqüências? O acelerado crescimento de depressão que caminha na mesma velocidade da evolução social.
A busca incondicional do ser humano por ser o número um é a tendência atual, em muitas situações nem sabemos bem o que buscamos, anulamos nosso emocional, nossa intuição e simplesmente, como robôs, tomamos decisões baseadas em um suposto “padrão” que nos leva a traçar planos e metas que não necessariamente representem nossa identidade, mas sim o que a sociedade apresenta como a nossa felicidade.
O que se vê é uma comunidade social descaracterizada de personalidade, cada dia mais infeliz no seu interior onde nunca se foi tão útil o uso de mascaras sociais que nos ajudem a demonstrar uma felicidade artificial, ou mesmo a compra dessa felicidade o verdadeiro catalisador do sistema capitalista que através de um consumo superficial e acelerado nos da uma falsa sensação de êxtase transitória.
Pela falta de estímulo ao raciocínio critico, ao pensar , estamos desestimulados a buscar o que realmente nos faça sentir bem. Sempre estamos em busca dos padrões colocados pela sociedade. Construindo uma personalidade vinculada a um perfil de tendência que nos leva a perda do nosso individual e de uma busca pelo auto conhecimento em pró de uma arena predatória que estamos condicionados a estar e sobreviver.
Guilherme Guerato
Quem sou eu?
abril 8, 2010 por admin
Arquivado em Destaques, Razao x Fé, Sociedade
Somos gerados no ventre da nossa mãe como se fossemos parte do corpo dela, após o nascimento, temos o cordão umbilical rompido e com o tempo percebemos que existem dois seres, mamãe e eu. Aí identificamos mamãe e dizemos “aquela é mamãe e este sou eu, e logo depois vem a pergunta básica, e “quem sou eu?”
A pergunta básica: “quem sou eu?” move a personalidade a buscar por resposta que satisfaça à pergunta. Usando da “agregação”, a nossa personalidade passa a buscar esta resposta no meio exterior. E através da identificação vai agregando características externas e criando a imagem de quem pensamos ser.
Agrego a nacionalidade e digo que sou brasileiro(a), me identifico com o sexo de nascimento e sou homem ou mulher, me identifico com a região em que nasci e passo a ser carioca, gaúcho(a), baiano(a), etc. Minha raça define se sou branco(a), negro(a), índio(a) ou oriental. A religião que herdei ou adotei passa a me definir também. O nome que me foi dado é a minha bandeira.
Catamos os valores que existiam antes do nosso nascimento e tomamos como sendo nossos valores. Agregamos pensamentos pré-existentes e estes pensamentos nos conectaram a emoções que não eram nossas, mas nós a sentimos e passamos a agregá-las e achar que estes sentimentos somos nós. E passamos a amar um time e a desprezar um inimigo que já existiam antes de nós.
Tudo vem de fora e é costurado, digamos assim, como numa colcha de retalhos. E esta colcha de retalhos chamamos de EU.
Este Eu exterior, este “eu” pegado emprestado do meio, é o que chamo de personalidade.
A personalidade é aquilo que é perguntado na hora que vamos preencher um cadastro: nome, endereço, idade, sexo, estado civil, nacionalidade, naturalidade, raça, cor dos olhos, cor do cabelo, escolaridade, etc.
Geralmente quando ouvimos a pergunta “Quem é você?” respondemos usando nosso cadastro: meu nome é tal, sou homem/mulher, tenho tantos anos, sou formado em tal curso, sou casado/solteiro, torço pelo time tal e assim vai.
A pergunta “quem sou eu?” continua sem resposta, mas nosso cadastro serve como uma resposta fácil e imediata e nos acostumamos a identificar a nós mesmos por ele e nos acomodamos com esta resposta. Ao tentarmos nos definir sem usá-lo ficamos mudos. Tente pra ver. “Quem é você? Responda sem usar o cadastro – “Eu sou…” Vou dar uns minutinhos para você se autodefinir… e aí, como foi? Quer tentar mais um pouquinho? Não é fácil não é?
A personalidade tenta responder esta pergunta dia após dia da sua vida. E vai agregando conceitos externos um após o outro, e assim que consegue uma nova identificação, comemora até perceber que esta nova identificação com um conceito ou valor externo não satisfaz à pergunta, e insatisfeita, a personalidade parte em busca de outra identificação. Nem é preciso dizer que ela está constantemente insatisfeita. Percebemos isto observando nossos desejos.
Desejamos ser ricos, desejamos ter um carrão, desejamos status, desejamos poder, desejamos um cônjuge, desejamos filhos, desejamos uma profissão, desejamos aumentar nosso cadastro, na ilusão de responder à pergunta “quem sou eu?” através dele. Mas o nosso cadastro não somos nós. O cadastro pode responder ao verbo estar, mas não ao verbo ser. Estou casado, estou estudando, estou morando… , mas o verbo “estar” não é permanente. O verbo “estar” é um viajante de passagem. Buscamos por algo permanente, algo que não acabe, algo infinito, algo que é.
O nosso corpo é, sem dúvida passageiro e apesar disto é uma das identificações mais fortes que temos. Quando nascemos recebemos um corpo de presente, é o nosso passaporte pra este mundo. É o nosso “AVATAR”. Eu comparo o corpo a um carro. Este corpo, recebemos de presente, todos nós. Cada um recebe um. Novinho em folha. 0 Km. Vem com as características da montadora, com cor, modelo e tamanho já pré-definidos no DNA. Alguns vem com itens de serie a mais, outros a menos. O tipo de veiculo vai influenciar o piloto. Tem carros de corrida, tem caminhões, tem carros para transporte, tem carros de luxo, utilitários, todo tipo de carro pra todo tipo de piloto e missão. E como não podia deixar de ser, nós, os motorista/almas recebemos este carro/corpo e logo em seguida agregamos ao que pensamos ser nós mesmos e pensamos: “Meu corpo sou eu”.
A personalidade é apegada a toda a sua imensa coleção. Olha para o cadastro e para todas as idéias e emoções que colecionou e diz a si mesma: “isto sou eu”. Qualquer coisa que a personalidade entender como perda na sua coleção vai soar como uma amputação, como risco de morte.
Mas a vida é feita de muitas “perdas”. Perdas de coisas que tomamos como nossas e como nós mesmos. “Perdemos” um emprego, “perdemos” um endereço, “perdemos” dinheiro, “perdemos” status, perdemos “um cargo”, “perdemos” saúde, juventude e sofremos como se parte de nós mesmos tivesse sido arrancada.
Por ignorar quem realmente somos nos apegamos a um monte de coisas externas que absolutamente não somos nós e acreditamos ser estas coisas. Esta é uma das grandes ilusões dessa vida. Na verdade ninguém é quem ou o que pensa que é.
A essência humana não é uma coleção de identificações com coisas inanimadas provenientes do mundo fora de nós, não é sequer o nosso corpo, que recebemos ao nascer aqui. A essência humana, a verdadeira resposta para a pergunta “quem sou eu?” não pode ser respondida por identificação ou por agregação de idéias vindas do meio exterior.
A resposta a esta pergunta está no mundo interior e não no mundo exterior. A resposta é pessoal e intransferível porque somos únicos e não é o mundo lá fora quem vai nos dizer quem somos. Paremos de procurar a resposta onde ela não está e a insatisfação, a frustração vão sumir. Comecemos a usar os verbos corretamente: “Eu estou médico”, “eu estou policial”, “eu estou doente”, “eu estou bandido”, “eu estou casado”, “eu estou ignorante”, etc.
Numa vida que é passageira, nada é para sempre, nada é absoluto. As pessoas lutam arduamente para transformar em eterno o que é transitório, numa luta sem chance de vitória. Há pessoas que fazem plásticas atrás de plásticas em busca de uma juventude eterna, de uma beleza eterna, de uma magreza eterna. A vida é como água, ela flui, ela passa. Não dá para segurá-la entre os dedos; se a represar ela evapora e se a confinar ela estagna e apodrece.
E nesta vida passageira, todos se perguntam “quem sou eu?” E imagino que Mário Quintana estava entretido, a indagar-se destas questões fundamentais quando disse que “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.” Seguindo esta linha de raciocínio, quem seria, então, esse “eu” que pergunta “quem sou eu?” e de quantos eus é feito um ser humano? Tantos quantos forem as camadas de consciência, de fora para dentro, até o EU central, seria a resposta. Imagino que se quem perguntasse fosse o eu-personalidade, – o eu externo – o cadastro satisfaria como resposta, mas não satisfaz, logo a pergunta deve estar sendo feita de um outro lugar, de um “eu” mais profundo, eu suponho. Imagino que quem pergunta é um “eu” que não passa e que pergunta incessantemente “quem sou eu?” para lembrar à personalidade que somos mais do que uma colcha de retalhos do mundo.
Lisélia de Abreu Marques – Brasília/DF
Poder e mediocridade
Estamos em mais um ano eleitoral e em breve a mesma lengalenga dos discursos simplistas e ilusórios voltará à tona em um coral formado por oportunistas e aproveitadores. Esses verdadeiros vampiros acostumados a sugar dos cofres públicos verbas que serviriam para estruturar nossa nação, serão os protagonistas de várias inserções nas grades televisivas e em toscos “santinhos” que em breve você receberá.
Mas de onde eles aparecem?
Na verdade, tenho certeza que você sabe bem de onde eles surgem. Estão ao nosso redor, são colegas e conhecidos que em sua maioria, medíocres, anseiam por poder. Provindos de uma sociedade onde os valores morais são facilmente substituídos por injeções de satisfação passageira, eles buscam no poder, acesso fácil aos prazeres mundanos. Com a credencial que o cargo os outorga se sentem senhores acima da lei. Esquecem que a sua principal finalidade seria servir os que o colocaram em tal posição.
Deixam-se levar pela leviandade presente nessa mesma sociedade em que teriam que consertar. No final, perdem a importantíssima oportunidade que lhes foi concedida e retardam cada vez mais o amadurecimento de nosso povo.
Já o povo, creditando ao destino seu sofrimento, age passivo, pois sabe que em seu intimo poderia estar fazendo a mesma coisa se tivesse a oportunidade. Agora lhe pergunto; como mudar então esse ciclo presente a centenas de anos em nosso país?
Agindo com razão e esquecendo as paixões que facilmente são alimentadas por discursos ideológicos que movimentam as massas nesse período. A solução está nas pessoas. Não nos partidos ou ideologias. O comportamento ilibado deve ser a vitrine da pessoa pública que pede para colaborar com a construção de uma nação. Desconfie de soluções miraculosas e de retóricas ensaiadas. A vida pessoal de quem anseia um cargo de poder deve ser analisada. Ele não fará no seio do poder coisas diferentes do que já fez em sua vida particular.
Hoje em dia é fácil encontrar nas câmaras legislativas de todo o país, políticos com acusações de assassinato, extorsão, roubo e abuso de poder. Em breve, esses mesmos políticos e outros que anseiam por substituí-los, estarão a pedir o seu voto. Cabe somente a você, mudar o rumo de como se faz política no Brasil. Se ausentar é colaborar com a manutenção do status quo. Como diria o dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht, “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
Abaixo um vídeo para não se perder a esperança
Eduardo Marques




