A escravidão capitalista
Texto por Guilherme Guerato – Brasília/DF.
Quando na escola estudamos sobre a escravidão que foi vivida por diversos povos em diferentes nações e épocas, ficamos alarmados com tal situação de servidão e humilhação que seres humanos eram submetidos. Darwin na sua expedição pelo mundo, quando de passagem pelo Brasil em uma fazenda no Rio de Janeiro, dizia se sentir enojado pela escravidão que era obrigado a presenciar. Na verdade Darwin não sabia que o novo sistema econômico que estava surgindo no mundo seria a verdadeira escravidão: o Capitalismo.
A escravidão era dura e simples, pessoas eram vendidas como mercadorias e eram exploradas para trabalhar em troca de uma pobre alimentação e uma moradia em condições precárias. Era abominável e chocante a forma como tratavam as pessoas. O mundo mudou, se industrializou, passando por duas grandes eras industriais iniciadas na Inglaterra e então veio o sistema de produção.
Porém, duas grandes guerras no último século mudaram a estrutura político social conhecida no planeta. Saia de cena a Inglaterra (como nação dominante) para a ascensão de dois eixos apoiados em dois regimes econômicos distintos. O primeiro denominado ”eixo do mal” comandado pela antiga União Soviética mais alguns países mundo a fora como Cuba e Coréia do Norte formavam seu alicerce. Do outro lado, tínhamos os Estados Unidos da América e os seus aliados da OTAN.
A URSS tinha um sistema falho e corrupto, pois está no ser humano sempre querer competir e buscar por algo mais. O que o Estado oferecia não era o confortável e nem o mínimo para se sentir bem, o básico oferecido costumava passar próximo à linha do limite para a necessidade. Já os aliados, viam o capitalismo se expandir, pois convencia pessoas de que a chave para felicidade naquele mundo pós guerra era o consumo. Movidos pelos EUA, a globalização veio como um tsunami atingindo quase todas as nações no planeta e acabou por desmantelar a antiga URSS em diversos países sujeitos ao regime capitalista.
Estava tudo claro e fácil, para um domínio absoluto de um sistema que quando desdobrado não passava de um sistema de escravidão mais eficiente. O ser humano vendeu sua alma não no sentido religioso, mas no sentido da sua consciência ser contaminada pela ligação da felicidade ao valor monetário. As questões morais, sociais e familiares, vêm perdendo importância a cada dia. O que nos torna mais frios e mais sujeitos a nos corromper por esse sistema, que nos ludibria vendendo o bem estar através do consumo.
Esse consumo não é apenas de bens materiais, mas de pessoas, do ser humano individual. O sistema se alimenta da sua produção que se transforma em consumo, é cíclico. Na verdade estamos vivendo uma escravidão muito bem estrutura e disfarçada, mas que é muito mais cruel que o velho sistema conhecido. Sua identidade, seu bem estar pelas coisas mais simples, seus valores vão se perdendo a cada dia, a cada dia que mergulhamos mais e mais nesse funil.
Quanto tempo vamos girar nesse sistema? Difícil dizer, talvez não dependa de nos responder isso, mas sim do planeta. Saber quanto mais tempo ele suportará esse sistema que não consome apenas as pessoas, mas também os recursos disponíveis que promovem a sustentabilidade da vida.
O jogo das mascaras sociais
Texto por Guilherme Guerato - Brasília
Ao admitir que cumpre-nos apenas viver conforme a sociedade já bem o definiu, cada qual desempenhando seus papéis sociais como o de marido, esposa, pai, mãe, trabalhador etc, permanecemos presos, impedindo o maior desenvolvimento. Não percebemos que cada papel carrega em si o próprio limite de atuação. Este limite é o referencial a que recorremos para definir as regras de cada atuação social necessária ao melhor convívio. Se por um lado ganhamos, ao identificar, aprender e ensinar à descendência como se deve viver para que não se sujeite à sorte, em contrapartida perdemos o espaço à criação de performances alternativas e desta forma reduzimos as chances de desenvolver a autonomia crítica, visto pouco questionarmos se os papéis que desempenhamos socialmente são a única maneira de viver e interagir.
Cada papel diz respeito a uma máscara usada para encenar o teatro da vida. Temos que ser de um jeito para com nosso chefe, seguidores, colegas de trabalho, filhos, vizinhos, padeiro, pastor etc. É claro que temos personalidade. Todavia, ela nos leva a vestir tais máscaras para que haja adaptação cotidiana. Não obstante, cada máscara possui uma limitação de se agir, moldando-nos a uma forma de ser. Ocorrem conflitos por causa do desacordo entre tipo de temperamento introvertido ou extrovertido, experiências acumuladas, conceitos formados, e padrões de comportamento sugeridos pela sociedade. Nas relações conjugais, por exemplo, o psicólogo Carl Rogers (1902-1987) concluiu que Numerosos problemas desenvolvem-se na medida em que tentamos satisfazer as expectativas do outro…, e que não devemos nos afeiçoar pelos desejos, regras e papéis que os outros insistem em impor-nos.
Sabemos que limites são importantes para o adequado convívio. Não se defende aqui a abolição de leis e regras, já bem explicadas por pensadores de outros séculos, como Thomas Hobbes (1588-1679), por sua afirmação de que O homem é o lobo do homem, e Voltaire (1694-1778), ao comparar: Para que uma sociedade consiga sobreviver, fazem-se necessárias as leis, assim como as regras para os jogos. A ordem política tem o seu papel na regulação do convívio entre os homens. No entanto, nos revestimos destes papéis ao usar as máscaras sociais e agimos apenas em conformidade a eles. Tal fato oculta poder, vez que imputamos limitação a nós mesmos seguindo rigorosamente as diretrizes que cada papel determina. Não nos inquietamos a ponto de refletir sobre se devemos pensar e agir diferentemente do que estamos acostumados. Não ousamos participar mais dos acontecimentos. Um exemplo é a idéia de que política deve ser realizada apenas por político ou quem detém o papel deste setor para lidar com os assuntos pertinentes. Nos enganamos. Podemos e devemos ser mais presentes em assuntos dessa natureza. Já se provou que a opinião popular é importante e tem peso, não só nas eleições, mas na luta pelos direitos democráticos, em processo de impeachment presidencial, referendo, etc. Basta usar a máscara para este tipo de necessidade e exercitar o seu papel.
Não nos damos conta de que respeitamos em exagero os limites dos papéis sociais e por tal razão criamos uma mentalidade enrijecida. Agimos desta forma despercebidamente desde bem pequenos. Cremos que outros papéis como o de pessoas de talento, bem sucedidas, com carreira em dada profissão etc, servem apenas para quem já os exerce. Entretanto, muitos são os papéis a serem utilizados até se chegar onde o sonho alcança. Outra questão crucial é o medo e a obediência incondicional a que nos sujeitamos mediante personagens que usam máscaras de posição social ou hierarquia acima da nossa. Simplesmente obedecemos ou nos queixamos às escondidas sem propor idéias e pontos de vista contrários, que podem, conforme a ocasião e a necessidade, serem surpreendemente melhores.
Por detrás de toda máscara há um ser humano tentando sobreviver em seu meio, buscando a adaptação à sociedade ou grupo ao qual pertence. Portanto, os papéis são importantes. Segue-se, porém, que é relevante a capacidade potencial que todos possuem para desenvolver a criatividade, autonomia e ações pessoal e comunitária. Mas para dinamizá-la, urge reconhecer as múltiplas possibilidades a se desempenhar por meio de novos e essenciais papéis, além dos que já temos.
Há o poder que prende e o que liberta. Podemos crescer em outro papel, libertando-se da idéia prisioneira de limitação. A vida é repleta de oportunidades, mas se não acreditarmos em nossa própria capacidade, nada acontecerá. Escolha uma nova máscara ou melhore o desempenho das que já usa. Aproprie-se do poder que há em cada papel. Máscaras sociais que antes pareciam impossíveis de lhe pertencer estão mais próximas do que você supõe. Com que máscara deseja triunfar?


