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	<title>Pensar 21 &#187; humor</title>
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		<title>Visão medieval cristã do riso</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Jun 2009 15:46:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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		<description><![CDATA[Artigo sobre a visão medieval cristã do riso. O riso era reconhecido como próprio do homem, conforme afirmado por Aristóteles; mas em geral censurado sob o argumento de que Jesus não teria rido em sua vida terrena. Porém, isso é contraditório, pois se Jesus foi o grande modelo humano, o riso torna-se estranho ao homem, ou pelo menos ao homem cristão.<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.pensar21.com.br/2009/06/visao-medieval-crista-do-riso/' addthis:title='Visão medieval cristã do riso '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O riso é motivo de interesse dos homens desde antigos tempos. Aristóteles na Grécia antiga, foi o primeiro filósofo a tratar sobre o tema, observando que o homem é o único animal que ri.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Alberti (1999, p. 66), a Idade Média foi um período marcado pela enorme influência eclesiástica cristã sobre o comportamento do povo. O riso era reconhecido como próprio do homem, conforme afirmado por Aristóteles; mas em geral censurado sob o argumento de que Jesus não teria rido em sua vida terrena. Porém, isso é contraditório, pois se Jesus foi o grande modelo humano, o riso torna-se estranho ao homem, ou pelo menos ao homem cristão.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma resposta a isso seria que o humor tende a profanar o sagrado. No fundo do nosso ser, rimos dos nossos medos e das nossas crenças. Piadas sobre santos, o paraíso e o inferno são comuns entre os cristãos simples que não se vêem pecando ao pensar e rir sobre o sobrenatural.</p>
<p style="text-align: justify;">O humor questiona as verdades absolutas, os dogmas e as autoridades que as encarnam. Com isso, sofrem a resistência dos que interpretam os textos sagrados e falam em Nome de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;">Na obra <strong>“O Nome da Rosa”</strong> de ECO, verificamos a posição de um eclesiástico medieval, chamado Jorge Burgos, sobre o riso e a sua tentativa de negar às pessoas o acesso a um livro que seria de autoria de Aristóteles, que classificaria o riso como algo sublime:</p>
<p style="padding-left: 90px; text-align: justify;"><span style="color: #808080;"> </span><span style="color: #808080;"><em><span style="color: #808080;">O riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez de nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o embriagado, mesmo a igreja em sua sabedoria concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, essa ejaculação diurna que descarrega os humores e retém de outros desejos e de outras ambições [...] Mas desse modo o riso permanece coisa vil, defesa para os simples, mistério dessacralizado para a plebe. Elegei o rei dos tolos, perdei-vos na liturgia do asno e do porco, representai as vossas saturnais de cabeça para baixo [...] Mas aqui afunção do riso é invertida, elevada à arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos. Faz dele objeto da filosofia, e de pérfida teologia [...]</span><br />
</em></span><em>(ECO, 2003, p. 454-455).</em></p>
<p style="text-align: justify;">A Igreja Católica Romana, que detinha o controle do poder e do conhecimento na Europa medieval, temia o riso, pois ele liberta o indivíduo do medo do demônio. Se o homem tiver a liberdade de rir, o que o impedirá de afrontar a autoridade instituída e, no limite, o próprio Deus, com o seu riso? Assim, a religião encontra refúgio no temor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paradoxalmente, o crente ama e teme a divindade; aceita-a e voluntariamente submete-se. O que muitas vezes pode vir a se tornar terror. Como escapar de um Deus onipresente e onisciente? O temor é, portanto, fundamental, e quem ri tende a não temer. </strong></p>
<p style="padding-left: 90px; text-align: justify;"><em><span style="color: #808080;">O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos também o diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é sabedoria. Quando ri, o aldeão sente-se patrão, porque inverteu as relações de senhoria. Que o riso é próprio do homem é sinal do nosso limite de pecadores. O riso distrai, por alguns instantes o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo próprio medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus. E deste livro poderia partir a fagulha luciferina que atearia no mundo inteiro um novo incêndio: e o riso seria designado como arte nova, desconhecida até de Prometeu, para anular o medo. E deste livro poderia nascer a nova e destrutiva aspiração a destruir a morte através da libertação do medo.</span><br />
(ECO, 2003, p. 455).</em></p>
<p style="text-align: justify;">Alberti (1999, p. 69), resume a posição da igreja sobre o riso na Idade Média da seguinte maneira: é impossível à religião eliminar o riso; trata-se, portanto, de admiti-lo sob certas condições e de interditá-lo naquilo que pode afrontar a verdade instituída.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta da tradição teológica medieval a este dilema será a diferenciação entre dois gêneros do riso: a <strong><em>lae</em>ttitia</strong> e o <strong><em>gaudum spirituale</em></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro se refere à felicidade das coisas terrenas e passageiras, algo negativo, fazia assim com que o homem esquecesse sua missão.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo, em compensação, era a verdadeira felicidade, aquela que atingia sua maior realização após a morte, mas podia ser experimentada ainda em vida, pela contemplação de Deus e de suas criações. A esta última correspondia o riso discreto e mudo que exprimia a felicidade do coração.</p>
<h3>ALBERTI, Verena. <strong>O riso e o risível na história do pensamento</strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor; Editora da FGV, 1999.</h3>
<h3>ECO, Umberto. <strong>O nome da rosa. </strong>Lisboa: Difel: 1984.</h3>
<p>Este texto faz parte do trabalho de conclusão de curso <strong>O Humor na Publicidade</strong> de <span style="color: #008080;">Eduardo de Abreu Marques</span> e <span style="color: #008080;">André Augusto Ferreira</span>.</p>
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